
A idéia da morte pra mim sempre foi comovente, instigante, dramática. Minha mãe conta que minha vó, ainda em plena saúde costumava vestir a própria mortalha que havia feito a mão em crochê e sair pela casa andando. Ela achava que isso iria preparar as pessoas para o dia que ela teria que usar aquilo pra sempre. Morbidez hereditária?
Sempre gostei de poemas dos românticos de segunda geração, que aterrorizados pelo mal do século tinham a morte como tema recorrente em suas obras. Álvares de Azevedo, começou a escrever bem novinho e teve uma carreira curta, morreu aos 21 anos mas foi imortalizados em linhas como:
"Voltei-me para a vida... só contemplo
A cinza da ilusão que ali murmura:
Morre! - tudo morreu!
Cinzas, cinzas...
Meu Deus! só tu podias
À alma que se perdeu bradar de novo:
Ressurge-te ao amor! "
"Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!"
"Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nelas
— Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—"
Ou o Lord Byron:
"Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste."
Gosto ainda da dedicatória do livro "Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis:
"Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas Memórias Póstumas."
Por fim, de uma perspectiva cristã bíblia o apóstolo Paulo fala:
"para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro"
Pois tendo a certeza da salvação, de que esta é uma vida passageira e que estar no céu com certeza é infinitamente melhor que viver esta vida terrena.
A questão é não se deixar dominar pelo medo da morte pois ele pode dificultar as escolhas. Ao buscar segurança em coisas nas coisas da vida arriscamos alto porque se existe uma coisa que não oferece segurança alguma é a vida viva que hoje está assim, amanhã...quem sabe? Até as coisas que parecem mais sólidas podem se desfazer como um castelo de areia tomado por uma onda.
Ainda cito o inesquecível livro "A última grande lição" (Mitch Albom) trouxe uma nova perspectiva sobre como encarar a morte. Ele diz:
"Aprendemos a viver quando aprendermos a morrer."
Isso porque a morte é certa e quando aprendemos a vê-la como tal passamos a viver plenamente a vida.
Sei da existência da morte, reconheço sua constante permanência. Mas o desafio é tornar a morte um estímulo para novas conquistas, descobertas e desafios. A eminência incerta da morte deve dar energia para viver o que de melhor existe em nós mesmos e na vida.
Não ando de mortalha dentro de casa, mas que às vezes eu me pego pensando em quem iria pro meu funeral...ahh isso sim!